Edebrande Cavalieri
A escrita é a salvação do espírito, da alma e do corpo.
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Algumas lições de Marília Mendonça

Para tantas pessoas foi um grande exagero da mídia apontar e motivar as tantas lágrimas das pessoas diante da morte precoce de Marília Mendonça. Muitos usaram e abusaram de maneira inescrupulosa esse momento de dor e luto para afirmar sua superioridade fajuta e hipócrita. Até câmara de vereadores que se negou a aprovar seu show gratuito para o povo em passado recente, resolver acertar o peso de consciência criando uma comenda com o nome dela logo após seu enterro. Até religiosos resolveram destilar seu catecismo de moralidade e bons costumes, sem contar os fiscais do corpo que tanto se incomodaram ao longo de sua curta vida.

 

Mas o que incomodava tanto as pessoas que a desconheciam? Para responder algumas questões tomo o pensamento mais breve do pensador atual Boaventura de Souza Santos que nos diz ser um direito querermos ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. Então chega o grito de Marília constatando uma realidade tão presente na vida das mulheres dizendo que “quanto mais eu vou atrás, mais ele pisa”. Então é preciso reverter essa situação que inferioriza a mulher e sugere a reação: “Então já que é assim, se por ele eu sofro, também vai sofrer nessa bagaça. Ninguém vai sofrer sozinho”.

 

E Marilia ainda alerta às mulheres, pois estar “de novo com essa pessoa, vai fazer papel de trouxa outra vez”. Como é difícil aprender a superar e não permanecer na mesma situação que inferioriza. “Para você isso é amor, mas para ele você não passa de um plano B”. Ele usa a mulher como se fosse seu tapete, para pisar, para desfilar, para aparecer. Então “para de insistir, chega de se iludir, o que cê tá passando, eu já passei e sobrevivi”.

 

Boaventura também nos ensina que temos o direito de sermos diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. É preciso de uma igual que reconheça as diferenças e uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades. O caminho é complexo. Nada fácil. O grito de uma mulher preciso tornar-se uma gritaria. Por isso, tantas mulheres se uniram ao grito de Marília. O choro na morte também se tornou uma gritaria. Também os homens podem chorar. Tantos choraram.

 

Seu grito chega aos ouvidos, a cabeça não ajuda. É pura loucura. Mas “esse caminho eu sei de cor”, e ficarei só novamente e nem vai mais atender o telefone. E vai querer voltar. “Vai tentar abrir a porta desse amor, quando eu tiver jogado a chave fora”. Em suma, não vem mais procurar nada, pois o “sinal está fechado”. Algumas situações só se resolvem com a ruptura, com o fechamento da porta de maneira radical, sem chance de, tendo a chave à mão, abrir novamente o coração.

 

As desigualdades se reproduzem em todos os ambientes, desde a família até a escola e as Igrejas. Os discursos e aconselhamentos religiosos nem sempre são o melhor caminho para se construir uma sociedade de direitos e não de dominação. Não é preciso ficar eternamente na defesa e na luta. Aí se morre de vez, de maneira amarga e dolorosa. O amor será sempre benvindo e venha do jeito que vier, “mesmo em segredo eu sou sua mulher”, nos diz Marília. “Eu sem querer me apaixonei. Esse amor natural nasceu em mim”. Contudo, o processo de libertação deverá abarcar homens e mulheres, nas igualdades e nas diferenças. Marília, em seu grito, nos ensinou tanto. Até na sua morte. O silêncio fúnebre tornou-se gritaria sob a forma de lágrimas.

 

Edebrande Cavalieri
Enviado por Edebrande Cavalieri em 10/11/2021
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