Edebrande Cavalieri
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Menor aprendiz

Ao lado da minha casa tem um pequeno supermercado com coisas de qualidade superior, onde é possível achar tudo o que se precisa com urgência numa residência. Atende uma camada social mais elevada, e dessa forma, também as pessoas que ali trabalham possuem nível sociocultural mais elevado. Geralmente quem trabalha nos caixas possui curso superior ou está cursando algum, nem que seja na modalidade EaD.

 

Numa de inúmeras vezes que estive ali, e são muitas pois decidi não mais fazer listinha de compra e sempre que precisar de algo terei a oportunidade de sair de casa, já que sou aposentado, encontrei embalando as compras uma mocinha usando uma blusa com a inscrição “menor aprendiz”. Era a segunda ou terceira vez que a via ali. Sempre as pessoas em compra se dirigindo às outras atendentes, e ela, pobre coitada, aí aprendendo. Nem um olhar para ela.

 

Isso foi me deixando intrigado, pois eu também não me dirigia a ela. Apenas pegava as sacolas com as compras que ela tinha colocado com muita atenção e cuidado. Mas valeria o quê? Aos olhos dos compradores era uma pobre coitada que deveria dar graças a Deus por ter conseguido esse espaço para aprender a trabalhar.

Como sempre fui professor, essa situação me tocava no fundo da alma. Por que tanta indiferença com alguém que está querendo aprender a trabalhar?

 

Até que decidi dirigir-me a ela perguntando onde morava. Que pergunta péssima! Depois que a fi, me arrependi amargamente. Mas ela se saiu muito bem dizendo apenas o município onde morava, já que onde moro faz parte de uma região metropolitana.

 

Então continuei querendo mais conversa, mas em volta as outras pessoas que ali trabalhavam com ela ficavam surpresas como alguém poderia querer conversar com um menor aprendiz! Então perguntei: - Você estuda em que série? Ela me respondeu prontamente. E continuei: - Quero ver seu boletim! Aí foi ela que arregalou os olhos para mim.

 

Acho que ela no seu íntimo estava pensando “esse sujeito não é meu pai para querer saber de nota de escola”. Mal sabia ela que eu também era professor. Hoje em dia nem os pais querem mais saber das notas dos filhos. É problema da escola. Que a escola resolva se o filho ou filha não quer estudar.

 

Vendo que ela se mostrava muito surpresa, eu lhe disse que era professor durante a vida toda. Então eu teria o maior prazer em ver as notas delas. Era ensino fundamental ainda. Ela ficou mais tranquila. Então eu disse para ela trazer o boletim que eu gostaria muito de ver. E fui embora. Saí com minhas compras embaladas por ela, pensando como estaria aquelas cabeças que viram o nosso papo.

 

Como é lugar que sempre frequentou comprando meus temperos fresquinhos e verduras deliciosas, novamente encontro a “menor aprendiz” embalando num dos caixas. Mesmo tendo mais fila no caixa em que ela estava, decidi ali permanecer só para ser atendido por ela.

 

Vi que ela me olhou rapidamente. Pensei com meus botões. Ela acha que a esqueci. É normal na sociedade em que vivemos esquecer das pessoas mais humildes, mais simples, uma “menor aprendiz”.

 

Ela nem olhava para mim. Parecia estar com medo. Quando ela me entregou as sacolas, olhei fixamente para o rosto dela, e falei baixinho: - Eu não te esqueci. E nem do boletim que você prometeu me mostrar.

 

Ela então foi logo me fazendo uma proposta: - Pode ser o boletim do próximo semestre?

 

Respondi imediatamente que podia sim. Que ela podia caprichar nas provas, estudando muito, que eu iria esperar.

Aprendi mais uma lição nessa vida de professor: muitas vezes a nossa atenção com cada aluno faz muita diferença no processo ensino aprendizagem.

 

Edebrande Cavalieri
Enviado por Edebrande Cavalieri em 05/06/2023
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