Edebrande Cavalieri
A escrita é a salvação do espírito, da alma e do corpo.
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Caderno de poemas

Caderno é coisa mais antiga em minha vida. Acho que depois dos brinquedos veio o caderno e também o lápis. Caneta veio bem depois, pois na época não havia a indústria da BIC. Era caneta a tinteiro mesmo. Tinha que aprender a encher na parte interior dela e uma pequena criança não teria habilidade suficiente para tal empreitada. Então, caderno e lápis foram meus “brinquedos” de um tempo muito grande do dia; meio dia para brincar com esses dois intrusos em minha vida. Mas era assim mesmo que se virava gente.

E logo no primeiro dia, quando cheguei em casa depois dessa “brincadeira”, minha mãe quis logo ver como eu tinha brincado. E ela maravilhada, tadinha, disse que eu brincava que nem um médico, pois o que eu fazia naquele maço de papel em branca era “letra de médico”. Longos anos depois percebi que esse elogio era uma condenação, pois “letra de médico” ninguém entende. Mas, minha mãe estava me elogiando.

Eu era meio bobo, pois também tinha um caderno chamado de “caligrafia”, que era para melhor a “letra de médico”. E acima sempre vinham letras lindas, verdadeiras pinturas em forma estilizada e nossa tarefa naquele espaço de “brincadeira” chamado “escola” era repetir abaixo as mesmas linhas, as mesmas curvas, o mesmo tamanho. Brincar na escola é pura repetição e docoreba. A criação nunca podia aparecer e eu aprendi logo cedo a criar minhas brincadeiras pelo quintal da casa, com os carreteis de linha, com os fios de barbante etc.

Então descobri duas formas de “brincar”. Uma acontecia como criação, invenção, fantasia e outra como repetição, cópia, reprodução. Que chata era essa segunda “brincadeira”. Mas era preciso entrar na roda para fazer “letra de médico”.

Hoje acordei pensando em “brincar”, voltar ao estado de criança. E me deparei com esse dilema. Nessa altura do campeonato chamado vida ainda seria preciso fazer “letra de médico”? Nem minha mãe eu teria para ser elogiado. Talvez lá de cima nesse lugar que dizem haver também “muita brincadeira” ela possa dar um palpite a respeito da minha nova brincadeira. Tadinha! Sempre a dizer que eu “era muito inteligente”, porque tinha “letra de médico”.

Mas agora, minha letra é toda igual. Sai da ponta dos dedos. E quando algo acontece de maneira equivocada, logo a correção. Parece “caderno de caligrafia” esse lugar onde dedilho letras e surgem palavras. Como escapar dessa prisão? Eu não perdi a vontade de criar meus brinquedos. Eu não perdi minha liberdade de criança. O mundo quis me tomá-la.

Hoje quero brincar usando meus dedos. Hoje decidi dedilhar poemas e assim romper as grades da prisão. Hoje meu grito de liberdade num caderno de poemas, minha maior elevação aos píncaros da fantasia e da imaginação.

Edebrande Cavalieri
Enviado por Edebrande Cavalieri em 26/05/2026
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