Edebrande Cavalieri
A escrita é a salvação do espírito, da alma e do corpo.
Capa Meu Diário Textos Áudios Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato

Comunidades virtuais

A pandemia ajudou a mudar a configura eclesial em termos de estrutura. Se antes as pessoas podiam escolher as paróquias de acordo com seus gostos em termos de comunidade, localização, padre, liturgia, etc. Agora cresce a consciência de que a comunidade não tem mais nada a ver com isso. Tudo parece ter virado de cabeça para baixo.

A comunidade está cada vez mais desconectada da vida paroquial online e presencial. Antes era a igreja paroquial que ficava no quarteirão mais próximo de nossa casa, e contribuía para a interação social entre os vizinhos. Agora a “paroquia” é virtual. Enquanto isso, a paróquia tradicional está entrando em falência, pois diminui a cada dia o número de pessoas que participam, dão ofertas e contribuem com o dízimo. A comunidade agora está presente na relação das redes sociais onde cada um pode participar de maneira anônima. Cada plataforma formará comunidades virtuais distintas que possui um objetivo e um ethos diferentes. Cada membro dessa comunidade possui uma visão diferente sobre o ensino e a disciplina da Igreja, sem nenhum controle de Roma.

A realidade virtual que forma comunidades virtuais vai bem além das missas online transmitidas por rádio, TV ou plataformas. Os especialistas afirmam que o que está por vir permitirá que as pessoas, como os avaares, mudem de plataforma sem precisar mudar de perfis. Serão capazes de se inventar e existir no mundo virtual e se mover em tempo real de forma integrada de uma plataforma para outra, de uma comunidade para outra. Desaparecem os limites que definiam uma comunidade.

Estamos diante de um novo mundo chamado de “metaverso”, que é uma realidade alternativa, um ambiente síncrono persistente no qual os usuários são incorporados como hologramas, construindo uma comunidade. Mas isso está no futuro.

O que está diante de nós é o acesso remoto à oração, orientação espiritual, pregação, estudo da Bíblia, eventos sociais pós-Igreja, praticamente qualquer coisa que a paróquia possa fornecer em pessoa, será como informação e interação. O acesso remoto permite que as pessoas escolham quem ouvir e com quem interagir. Está chegando ao ponto em que o fato católico e a ficção católica estão em competição. O que é real e o que é pura ficção? O que é verdade e o que é fake News? Cabe uma pergunta: haverá um metaverso católico controlado por Roma? Ou as várias comunidades virtuais católicas continuarão a crescem em seus próprios rumos?

Mais questões podem ser feitas: como ficaria a escuta da Palavra de Deus? Seria a mesma coisa que qualquer outra coisa que se ouve na internet? Como seria a comunhão entre os membros que compõem a comunidade virtual? Uma rede social pode ser caracterizada como vida de comunhão eclesial? Que critérios teríamos para distinguir uma comunidade eclesial de uma comunidade virtual? Ou elas se equivalem? Como aconteceria a oração comum, base da vida da comunidade eclesial desde os tempos apostólicos? A celebração da Eucaristia, eixo da vida da comunidade eclesial, teria o mesmo critério entre os dois tipos de comunidade? A missa online teria o mesmo valor que aquela presencial, lado a lado com nosso próximo e pertinho do celebrante? A eucaristia, assim como os demais sacramentos, como seriam celebrados? Por fim, a missão de testemunhar, na sociedade, os valores do Evangelho teria equivalência nas duas realidades?

A virtualização forçada pela pandemia do espaço litúrgico está criando um novo tipo de centralização e des-localização da Igreja Católica. O centro pode ser o Vaticano, mas também outro que nosso grupo tenha escolhido. Isso vai causar um impacto no equilíbrio enquanto igreja em termos de estrutura eclesial e também de autoridade. Porém, cresce outro impacto quase nem notado que se refere à dimensão institucional e a sustentabilidade financeira das igrejas locais. As comunidades virtuais estão esvaziando os cofres das paróquias.

O Papa João Paulo II, em 2002, dizia que “a internet pode oferecer magníficas oportunidades de evangelização”. Já Bento XVI afirmava em 2013 que “o ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade cotidiana de muitas pessoas, e, por isso, se a Boa nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos”. O Papa Francisco retomava a afirmação de que “a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isso é uma coisa boa, é um dom de Deus. A rede digital poder ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas”.

Diante da pergunta feita por um aluno da Escola Fé e Política a respeito das comunidades virtuais, fizemos alguns comentários. A questão fundamental nos parece ser a configuração da presencialidade, pois a fé cristã é encarnada e comunitária, exigindo contato humano real. Por outro lado, há uma limitação forte para a vida sacramental. Os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia exigem presença física. E como seria um batismo numa comunidade virtual? A realidade virtual em nosso entendimento aumentaria sobremaneira o individualismo religioso com o risco de se criar uma fé “à la carte”, consumista de forma isolada e sem compromisso. Por último, não estaríamos confundindo comunidade com “bolha digital” em que os algoritmos podem polarizar discussões em vez de promover a unidade da Igreja.

Edebrande Cavalieri
Enviado por Edebrande Cavalieri em 19/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários